Haviam quatro anos que ele não tirava férias. E pouco mais de cinco anos que não se via com dinheiro suficiente para viajar. Aproveitou seu aniversário e foi se dar um presente novo, daqueles que não se guarda, mas se vive. 

Luís preparou o roteiro: um mês inteiro em cima de uma Triumph Bonneville, para cruzar a Inglaterra de cima a baixo. A idéia era simples: muito mais que aprimorar no idioma, queria conhecer a antiquíssima cultura inglesa, que ninguém lembra que tem mais de mil anos. Saindo de Londres, passando por Wales, Liverpool, visitando Glasgow até Aberdeen, e voltando para passar pela Isle of Man e Dublin, e tendo que devolver a moto em Londres. 

Luís ficou quatro dias em Londres. Pode-se dizer que entre Trafalgar Square e Covent Garden tem um bocado de chão. Para isso, assistir a Top Gear ajudou bastante: entender como funciona o trânsito e o condutor inglês foi muito bom pra poder conduzir sua moto num país desconhecido. E claro, visitar os locais comuns de turismo que a Inglaterra tem. Mas uma coisa que os britânicos fazem muito bem é rock: Luís mal dormiu durante sua estada em Londres porque é relativamente fácil encontrar em bons pubs as programações musicais, mainstream ou underground. 

Um dia de hostel e a próxima parada era óbvia: depois de comprar alguns livros em Oxford e despachar via correios pra si mesmo, Wales o fez entender um pouco mais sobre algumas coisas inglesas, como a ênfase que os locais dão á sua origem. Nem pense em confundir as coisas: País de Gales é uma coisa, Wales é outra e assim vai. Com estradas dignas de filme, ele não achou nada ruim a escolha que fez por seu meio de transporte. Isso e seu GPS também. 

Em oito dias após sua chegada e logo estava batendo fotos na rua dos Beatles, e assistindo a bandas covers que se apresentam em vários locais para os turistas. Mas mesmo dentre eles, sempre tem quem deixe o cover de lado e mantenha a chama do rock acesa, afinal, estamos na Inglaterra.

De Liverpool a Glasgow são pouco mais de três horas de viagem. Cobertas a base de fish’n chips – e um pouco de olhos baços para o jornal – que deram de cara num show do Beady Eye. Taurina, café e mais fish’n chips o fizeram cantar e pular, antes de desabar no hotel simples que alugou. No dia seguinte, em seus passeios, encontrou um clube de amantes de Triumph Bonneville, e praticou um inglês mais técnico, envolvendo peças, customizações e histórias da moto. 

A balsa o levou a Larne, no Eire, e logo estava num pub tomando cerveja, é claro. A viagem seguiu até Belfast em pouco mais de duas horas. Faltavam ainda cinco dias para gastar, então dois foram para Belfast e três para Londres, onde voltou para deixar a moto. Suja. Muito suja.
Chuva, granizo, alguns tombos, duas jaquetas rasgadas, dois capacetes quebrados – um porque caiu de cima de uma mesa, veja você – e um mês inteiro sem falar português, alguns novos amigos no Triumph Motorclub de Glasgow e duas bandas em Londres e foram o saldo da viagem. Enfim, um presente de aniversário que não se ganha, se vive.
*Imagem Reprodução