Desconfio um pouco de quem bate no peito e diz: “eu continuo o mesmo de sempre”. Primeiro, porque não acho possível ser o mesmo sempre. E segundo, porque, se possível for, não vejo vantagem nenhuma em ser o mesmo de sempre.

Eu me mudei para o Rio de Janeiro quando tinha 21 anos. Eu tinha medo, pudor e um monte de preconceitos comigo mesmo, com os outros e com a vida de um modo geral. Via mais coisas erradas do que certas em cada ação. No início, as pessoas me diziam para não sair à rua de relógio. E eu não saía. Não saía à rua. Desconfiava de todo mundo. Não tomava cerveja. Não dormia tarde. Não passava do ponto, nem da hora. Não blefava. E acima de tudo, não falhava. Chato…

Um dos meus primeiros endereços, ainda que provisório, no Rio foi a rua Dias Ferreira, no Leblon. Quem conhece sabe que dificilmente poderia ser muito melhor que isso. No apartamento, havia uns quatro ou cinco caras. Um deles era estrangeiro. Creio que colombiano, talvez. Jovens se lançando à cidade grande. Saíam à noite quase diariamente para ver o que o bairro do Manoel Carlos tinha a oferecer. Eu não. Além da razão óbvia e inevitável da grana curta, eu não achava certo. Ou porque era terça-feira, ou porque eu tinha que dormir cedo como gente honesta faz, ou porque eu não bebia, ou porque eu poderia ser assaltado,  ou porque eu não fazia muita questão de me misturar com gente nova, ou porque eu tinha uma namorada a mil e tantos quilômetros dali e “ai, meu Deus, o que ela vai pensar” ou, ainda pior, “se eu não saio aqui, ela não sai lá, melhor assim”. Bom, dá para imaginar que eu não era dos seres humanos mais evoluídos aos 21.

Acontece que eu mudei, veja só. Pode-se dizer que o mundo me mudou. Ou ainda que o meu mundo mudou. Enfim… Não serei tão cretino a ponto de dizer “olha que pessoa incrível eu me tornei”. Longe disso. Até porque o processo todo é uma estrada onde o objetivo é caminhar e não, chegar. E que assim seja.

Tudo isso me ocorre na seguinte conjuntura: são 22h55, estou há uma hora dentro de um trem que partiu de Madri rumo a Lisboa, junto com gente de todas as caras e cores. Na última noite, resolvi conhecer um pouco mais da vida noturna da capital espanhola e dormi cerca de umas três horas apenas. Nas noites anteriores, não havia sido muito mais que isso também. No quarto do hostel, quando saí, estavam dois brasileiros e um venezuelano. Mas, pouco antes, eram duas australianas e um australiano. Um monte de gente legal e um monte de gente estranha. Espanhol, português, inglês, migué de italiano, música de Edith Piaf pra ajudar no francês… A comunicação acontece, impressionantemente.

Hoje, passei o dia todo caminhando em Toledo sob um sol de 41ºC. Minhas pernas doem. Meus pés estão cheios de bolhas. Estou sujo. Ainda faltam umas oito ou nove horas para o meu destino. Não sei quando vou dormir ou comer bem de novo.

Eu tinha medo de viajar sozinho, confesso. Nunca me senti confortável em conhecer e conviver com gente muito diferente de mim. Tinha um certo pé atrás com esse negócio de hostel. Costumo dizer que sou o antissocial mais social que existe, mas tinha medo da solidão. Uma bobagem sem tamanho. Agora, passa da metade de uma viagem sonhada, mas não muito, planejada, mas não tanto, e que, até agora está saindo melhor que a encomenda. Morto de cansaço, fora da minha zona de conforto, mas não consigo me ver mais feliz do que estou.

Nos últimos dez dias, não foram poucas as vezes que estive bem perto de chorar de emoção. Os olhos molharam. Foi assim quando estava caminhando pelo Parc Guell, em Barcelona, o vento anunciava a chuva em pingos esparsos e trazia também música. Com uma vista linda da cidade, um cara tocava Viva La Vida no violino. Não sei julgar se era um bom violinista ou não, e isso também não vem ao caso. Mas, as pessoas paravam hipnotizadas para ouvir. Sentei e ali fiquei por umas três ou quatro músicas. Do meu lado, um casal não se de onde e um bebê no carrinho, que eles fazia questão de deixar voltado para o artista.

Dias depois, a poucas horas de deixar Barcelona, correndo para dar tempo de tudo, cansado e quase sem forças para caminhar, me vi mais um entre uma infinidade de turistas a admirar o espetáculo das fontes da Praça Espanha, numa noite inesquecível. Parecia uma criança, me enfiando entre as pessoas, com a câmera na mão, em busca da melhor foto. Uma alegria infantil, de sorriso frouxo, acompanhada de perto pela minha nova amiga catalã, uma dessas pessoas raras que a vida nos apresenta de vez em quando.

Quase chorei também quando, depois de subir uma dezena de escadas rolantes, ansioso, sei lá, como um noivo no altar, tomando uma mixta (bebida de cerveja com limão, boazinha até), saí pelo “vomitorio 606-W” e me vi no alto de um infinito Santiago Bernabeu, que recebia mais de 70 mil pessoas numa segunda-feira para Real Madrid x Córdoba, pela primeira rodada do Campeonato Espanhol.

Houve e vai haver outros grandes momentos por aqui. Ainda tem todo o passeio por Portugal pela frente, onde, me diz um amigo que cá viveu, vou entender muito do que é o Brasil. Sei que vai demorar um tempo para eu digerir e entender tudo que esses dias “sozinho” na Península Ibérica vão significar para mim daqui para frente.

É como se todo chopp negado no Leblon dez anos atrás estivesse sendo vingado, sem vingança nenhuma, a cada “sim” que respondo a mim mesmo e à vida. Este trem vai me levar a Lisboa. Daqui uma semana, um avião me levará de volta a São Paulo. Mas, não sei aonde estou indo. E tudo bem. No momento, só me interessa saber que nunca vou ser aquele que bate no peito e diz: “eu continuo o mesmo de sempre”.