“Joseph’s face was black as night

The pale yellow moon shone in his eyes

His path was marked

By the stars in the Southern Hemisphere

And he walked his days

Under African skies”

Eu nasci em 1985, então, boa parte da história já tinha passado. Eu acredito que perdi tudo o que o século XX tinha para me dar de história. Mas, ter nascido em 1985, me de uma coisa. Eu cresci ouvindo Graceland, de Paul Simon; gravado com artistas sul-africanos e em pleno regime do apartheid. Os sons diferentes, as vozes poderosas afeitas à falta de microfones, tudo. Mas nada fala comigo tanto quanto os primeiros acordes de Under African Skies e a voz quase onírica de Linda Ronstadt, o andamento dançante que me fazem me sentir com 4 anos de novo.

Quando instado sobre fazer uma viagem longa, um monte de gente me perguntava “por que a África?” e discorriam sobre o que viam nos noticiários. O filme Diamante de Sangue, Hotel Ruanda e tudo o mais que fala-se sobre o continente. Mas não pode um continente inteiro estar em guerra. Não é possível. E não podemos ficar apenas com o que se fala a TV. Ela é muito seletiva, gosta de guerra, sangue, sexo e fofocas. Quando falei das possibilidades na África do Sul, e tudo o que o país tem de ecoturismo, esportes radicais, trilhas, parques de preservação e a língua inglesa, as sobrancelhas se levantavam.

Mas eu queria mais que isso. Logo digo o que é. Quem for esperto, já entendeu.

Ir para a Universidade do Cabo fazer uma pós-graduação era a pedida principal – uma das melhores universidades do mundo e um dos melhores locais para estudar reestruturação urbana. O ambiente é bem parecido com o brasileiro, especialmente na desigualdade social, então, estava em casa. Ou quase.

Fiquei no país por seis meses, na casa de uma família linda: o pai, Joseph, é um homem de negócios que cuida de várias vans executivas enquanto sua esposa, Awande, é uma professora de matemática para o que seria o nosso Ensino Médio. Ali, eu era o melhor amigo de Ayanda, o mais velho da família, e ajudava a cuidar da pequena Dova, de cinco anos, a menina mais fofa e mais pilhada que eu já vi. Ayanda era um engenheiro que trabalhava na prefeitura de Capetown, e estava cursando sua segunda pós.

Pense em praias incríveis, parques que transformam a TV em propaganda enganosa e locais onde o céu é… é…. Então, e isso tudo é bem mais barato que ir pra Inglaterra e o mais legal é que você ainda pode acabar aprendendo algumas coisas em alguma das línguas do país, e são muitas. Ah, e o vinho, claro. Safári é o básico, mas o vinho, sério, sem comparação.

Mas há muito mais que isso. Eu queria aprender algo que eu conheço de algum jeito, mas nunca entendi: o racismo. E o melhor lugar para entender isso é onde ele virou sistema de governo.

Em Joanesburgo há o Museu do Apartheid e há o download gratuito de um livro para estudantes e professores. O próprio museu é um local que mostra bem, logo na entrada, a divisão entre brancos e não-brancos. E conta de maniera cronológica da guerra dos Bôeres até a instalação do regime segregacionista e dali até o presente, onde o próprio museu é um meio de curar essa parte da história do país.

Joseph me contava histórias de sua infância e adolescência e Awande me mostrou fotos de seu pai, preso e morte durante o regime. Os mesmo tiveram problemas sérios durante a gestação de Ayanda, pois os hospitais estavam sempre muito cheios e, mesmo com dinheiro, não conseguiam ser atendidos por locais melhores. Os olhares, as repressões, os amigos presos e torturados, os familiares mortos. Tudo por causa da cor de pele.

O que não entrava – e não entra – na minha cabeça, é como que um país africano segrega a maior parte de sua população. Joseph então me disse: “Os que estão no poder não se importam com a história. Se importam com eles mesmos.”

De volta pra casa, já no aeroporto, eu comecei a reparar em tudo. Não fui apenas aprender inglês ou fazer uma especialização, fui aprender o que eu não conhecia. E que agora eu sei um pouco, e mesmo nunca tendo sentido, agora consigo imaginar o que é ser tido como inferior porque minha pele não é branca. E como isso é absurdo.