As mãos do brasileiro que nasceu em Londrina, no Paraná, há quase quarenta anos revelam um talento que um dia pareceu ser exclusivo das pernas. Walmes Rangel, com 1,92 metros de altura, já foi um dos mais velozes atletas do Brasil na categoria 110 metros com barreiras. Participou das Olimpíadas de Atlanta e colecionou títulos de campeão esportivo. Ao longo dos últimos anos, porém, as barreiras que Walmes enfrenta mudaram bastante. Trabalhando como cabeleireiro e maquiador, o ex-atleta virou referência entre as celebridades do Brasil e, há pouco mais de um ano, está em Dublin. Interagir com os irlandeses e com pessoas das mais diversas nacionalidades nesse mercado de trabalho é para ele uma oportunidade. “O idioma ainda é um obstáculo a ser completamente dominado, mas aqui eu consegui resgatar o amor que eu estava perdendo pela minha profissão”, revela Walmes.

A inspiração que levou o brasileiro a construir um currículo competitivo no meio esportivo não é muito diferente daquela que o coloca em destaque quando o assunto é cabelo e maquiagem. “Eu deveria ter uns seis anos de idade e já me encantava com a beleza. Assistindo às Olimpíadas de Moscou, ficava impressionado. A plástica do esporte é belíssima. Mais ou menos na mesma época, achava encantadora a abertura da novela Locomotiva com uma mulher que fazia cabelo e maquiagem e saía transformada. Eu dizia para minha mãe: quando eu crescer, vou ser cabeleireiro”, conta ele.

Barreiras deixadas para trás

Por mais de vinte anos, Walmes correu. A velocidade que ele alcançava chamava atenção ainda nas brincadeiras de crianças na rua. Aos dez anos de idade, ele entrou para um projeto na sua cidade natal que incentivava novos talentos no esporte. Com o potencial que tinha, chamou a atenção de um clube com uma das mais importantes equipes de atletismo em São Paulo. E foi nessa época que ele se deparou com uma das maiores barreiras de sua carreira: sair, pela primeira vez, de perto da mãe. “Foi muito difícil. Uma realidade que nem de longe eu imaginava. Não encontrei o apoio e a estrutura que esperava. Sem falar na distância de casa, da saudade”, lembra.

Walmes1_Depois de anos treinando em São Paulo, ele foi para um clube no Rio de Janeiro e de lá chegou ao sonho de participar da Olimpíada de Atlanta em 1996. “Não consegui o meu melhor, mas estar numa Olimpíada já foi o suficiente, porque eu fazia aquilo por amor. A rotina de competição era tão maravilhosa que já bastava para mim”, complementa. Com o fim das Olimpíadas, Walmes resolveu tirar férias das lesões, dos treinos e de toda aquela rotina. Esse foi o primeiro passo para uma grande mudança na carreira do velocista brasileiro.

A realização profissional

Por quase quatro anos, Walmes foi promotor de eventos, de festas, mas a chegou a voltar ao atletismo entre de 2000 e 2004. Só que neste intervalo de tempo, já começou a dividir seu interesse entre o esporte e a beleza. Um trabalho numa rede de cabeleireiros foi o primeiro passo para a mudança de carreira.

Foi na terra natal, em Londrina, que Walmes começou a ser reconhecido pelo talento com maquiagem e cabelos. Depois, trabalhou em São Paulo para agências de modelos, fez campanhas, capas de revistas renomadas, cabelo e maquiagem de artistas famosos. Mas quando achou que a criatividade deu lugar à insatisfação pessoal, ele recomeçou. Dessa vez, em Dublin. Em um salão de beleza que atende brasileiros e clientes de toda da Europa. Um lugar para criar, para dar vida ao Walmes que já não corre para pular barreiras, mas que enfrenta cada uma com cautela, usando todas as experiências do passado. “Eu me sinto valorizado pelo o que eu sou. Isso é qualidade de vida”, define ele.


Marciéli Palhano
Jornalista brasileira, nômade por natureza. Adora conhecer pessoas, histórias e lugares diferentes. Se tiver comida boa, uma bela paisagem e gargalhadas, não precisa de mais nada. Diagnosticada com doença celíaca e intolerâncias alimentares, criou o projeto Zero Gluten & Lactose: www.zeroglutenlactose.com