Em poucos anos, houve um avanço nos serviços de companhias aéreas no que diz respeito à alimentação servida em voos internacionais. Atualmente, a maioria das empresas trabalha com refeições especiais. No entanto, quem tem alergia alimentar, que muitas vezes oferece riscos a própria vida, doença celíaca, sensibilidade ao glúten e intolerâncias sabe que encarar viagens internacionais de avião ainda é um sufoco. Os desafios são muitos e imprevisíveis. Há diversos relatos de passageiros que precisaram de atendimento médico emergencial por descuidos da companhia aérea durante o voo e até situações onde foram impedidos de viajar para evitar complicações.

Desafios 

A contaminação cruzada é um dos problemas, por exemplo, da alimentação de celíacos. Embora refeições sem glúten seja oferecida pela maioria das companhias em voos longos, existe sempre um aviso de que não há garantia de ausência traços de glúten. Para um celíaco ou alérgico, se existe traços do alimento, não é seguro.

sem-lactose-no-aviao-press-abroadNão conseguir optar por mais de uma restrição é outra situação complicada. Muitos celíacos, em função do aumento da permeabilidade intestinal, podem ter reações a leite, soja, ovo, aveia (mesmo a sem glúten) e demais alimentos. Mas as opções são limitadas. Um celíaco intolerante à lactose deve escolher ou sem glúten ou sem lactose, por exemplo. Veganos também não podem ser celíacos, ou vice e versa. Mesmo em menu pago, especialmente em voos internacionais curtos, são poucas as opções (ou quase nenhuma) para celíacos ou pessoas com alergia/intolerância alimentar.

Minhas histórias

Você também deve ter uma história para compartilhar. Eu tenho várias, mas vou resumir pelas mais recentes.

zero-glutem-no-aviao-press-abroadEm março de 2016, viajei da Irlanda para o Brasil pela companhia Air France/KLM. Como sou celíaca, quando comprei o bilhete já escolhi a refeição sem glúten. No entanto, em janeiro deste ano, também fui diagnosticada com intolerâncias alimentares (reações mediadas por IgG). Além de não poder comer qualquer traço de glúten, estava em tratamento com restrição a ovo, proteína do leite, soja, castanhas etc. Sei que esperar uma alimentação com tantas restrições é pedir demais a uma companhia aérea. Mas fiz contato para saber se eu poderia ao menos solicitar mais frutas no café da manhã, onde normalmente são servidos ovos. Não era possível. O atendente chegou a sugerir que eu escolhesse a refeição vegana (que não era sem glúten), para evitar que servissem ovos. Depois de muita conversa, ele verificou no sistema e me ofereceu a refeição “allergen-free”. Segundo ele, não teria os principais alérgenos – trigo (glúten), castanhas, ovo, soja, leite e muito mais. Parecia perfeito, ou a melhor opção para mim. Fiz a troca – mais de 72 horas antes do meu embarque. Ele comentou que a aprovação poderia demorar um pouco. Demorou demais. Para minha indignação, no voo eu descubro que não veio refeição alguma para mim – nem a sem glúten, nem a sem alérgenos, que não estava disponível naquele trajeto. Expliquei o caso para a aeromoça que chegou a me mostrar a lista de refeições especiais – meu nome não estava lá. Resultado, fiquei sem comida. Saí de Dublin às 15h e chegaria ao meu destino final às 13h do outro dia. Fiquei com algumas frutas e meus discos de arroz e biscoitos durante toda a viagem.

Em outra ocasião, em uma viagem dos Estados Unidos à Irlanda pela Aer Lingus, os atendentes de voo simplesmente esqueceram da minha alimentação especial no café da manhã. Fiz o aviso e disseram que estava vindo. Depois que todo mundo já tinha comido, consegui a atenção de um outro atendente que trouxe minha refeição quando o voo estava em procedimento de descida. Sem falar que o alimento esquentado no micro-ondas depois dos outros já estava contaminado por glúten. Em um outro voo anterior, pela mesma companhia aérea, não consegui solicitar a refeição especial pelo site – não existe essa opção. Quando consegui o contato, um dia antes do embarque, já não dava tempo para a solicitação porque não completava 24 horas antes da partida conforme exigência – agora eu aprendi que se não existe a opção pelo site, preciso fazer contato por telefone ou email imediatamente.

Mudança

Se essas empresas oferecem um serviço de alimentação a bordo, precisam garantir segurança, principalmente, no que diz respeito à contaminação cruzada. Para que a alimentação restritiva por condição médica seja reconhecida como um direto, é preciso que as pessoas se manifestem e reúnam forças para reforçar a seriedade do assunto. A reclamação oficial no site das companhias aéreas e órgãos competentes é uma das alternativas e dever de todo passageiros que estiver insatisfeito. Cada um de nós deve ser manifestar para garantir mais conforto, menos riscos em viagens futuras e, principalmente, espalhar conscientização sobre a importância de uma alimentação segura para celíacos, sensíveis ao glúten e alérgicos.


Marciéli Palhano
Jornalista brasileira, nômade por natureza. Adora conhecer pessoas, histórias e lugares diferentes. Se tiver comida boa, uma bela paisagem e gargalhadas, não precisa de mais nada. Diagnosticada com doença celíaca e intolerâncias alimentares, criou o projeto Zero Gluten & Lactose: www.zeroglutenlactose.com