A exigência de um exame médico que comprova a virgindade de uma jovem que passou no concurso da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo trouxe à tona uma discussão antiga – a virgindade feminina. O assunto nos remete aos mais diversos fatos históricos, às diferenças culturais, mas, principalmente, a uma série de sentimentos e frustrações.

Até há pouco mais de uma década, a não comprovação da virgindade feminina no Brasil dava direito aos homens de anular o casamento. O hímen – membrana da vagina- demora de 12 a 15 dias para cicatrizar depois de rompido. Se os peritos concluíssem que o hímen já estava cicatrizado, o casamento era anulado e os dois voltam a ser solteiros. A Constituição Nacional de 1988 igualou homens e mulheres perante a lei, mas a mudança na lei sobre a virgindade feminina aconteceu apenas em 2003. Revertido o problema da lei que durou quase um século, o pensamento depreciativo da mulher brasileira, infelizmente, perdura.

Não se podem negar situações em que até as mulheres contribuem para o retrocesso da desconstrução da histórica sociedade machista. A busca pelos direitos femininos transformou-se no próprio pesadelo das mulheres. E, diga-se também, dos homens. Foram direitos conquistados, deveres deixados para trás, perdas de valores, desvios de propósitos. E, por fim, a mulher brasileira continua sendo exibida nas páginas da Internet como um ser de corpo escultural, sexy, dona de beleza ímpar e de poucas conquistas sociais. E tem quem não veja problema nisso!

O caso da jovem brasileira que leiloou a virgindade é um recente exemplo da banalização do corpo feminino. Um fato que, indiferente da consumação ou não do ato sexual por dinheiro, soma-se a outras questões que trazem à tona o questionamento sobre o que é a mulher e o quanto a virgindade representa o seu valor. Valor que chega a ser traduzido em dinheiro e não por propósitos culturais ou crenças religiosas. Valores que muitas vezes elas mesmas se impõem. Valores que elas mesmas desconhecem ou esquecem tê-los.

A vulgarização da imagem da mulher brasileira quebra a o processo de desconstrução da soberania masculina. E, nessa reviravolta, o hímen, que antes vitimava a mulher, capaz de anular um casamento, voltou a pertencer a elas, mas ainda carregando valores que diferenciam gêneros. Afinal, a virgindade feminina e masculina teria o mesmo peso? Teriam homens e mulheres o mesmo julgamento sobre suas escolhas e decisões? O problema dessas respostas não é apenas o impacto de um “sim” ou “não”, mas a falta de argumentos para a compreensão da mensagem que se deseja passar por meio delas.

Aí, anos e anos discutindo-se a representação do hímen, entra em cena um concurso público exigindo um exame para comprovar a virgindade de uma mulher para assumir a função de agente de organização escolar. Parece brincadeira. Uma desconstrução histórica. Um retrocesso dos direitos humanos sob a banal alegação de verificar as condições da saúde da mulher que inicia o trabalho no serviço público.

Difícil aceitar que numa sociedade de um país em desenvolvimento, que alcançou patamares antes inimagináveis na economia, educação e até na cultura, a imagem da mulher continue tão fora de foco, tão sem sentido, tão ligada a um símbolo insignificante que é incapaz de comprovar a virgindade – sim, as mulheres podem ter relações sexuais e o hímen não se romper! Inacreditável que num país onde a liberdade de expressão precisou vencer a mais árdua luta de sua história continue se perdendo por um edital de concurso que minimiza a significância da mulher pelo hímen. Minimiza, porque se a questão é a saúde e as condições próprias para o início do trabalho, não vai ser um hímen que dará a garantia disso. Se hoje ele está lá, amanhã pode não estar mais. E nem por isso uma mulher terá mudado seus valores. Que se verifique a saúde dos homens e, para isso, certamente, não será levado em conta a presença de um hímen.


Marciéli Palhano
Jornalista brasileira, nômade por natureza. Adora conhecer pessoas, histórias e lugares diferentes. Se tiver comida boa, uma bela paisagem e gargalhadas, não precisa de mais nada. Diagnosticada com doença celíaca e intolerâncias alimentares, criou o projeto Zero Gluten & Lactose: www.zeroglutenlactose.com