– Amor, que foto é essa?

– Esse sou eu, em julho do ano passado. Um amigo do trabalho levou uma daquelas instantâneas novas e resolveu sacanear todo mundo. Eu tinha acabado de derramar café.

– Não pode ser!

– Eu emagreci tanto assim?

– Não muito, continua fofinho como eu gosto, mas que postura terrível! E como você conseguiu mudar tanto de julho até agora, abril?

– Bom, (suspiro), tudo começou com essa mancha de café. Posso colocar que foi ela que me deu vontade de mudar tudo. E eu guardo essa foto pra eu me lembrar de como foi aquele dia.

– Como foi esse dia?!?

 – Eu estava tomando medicamentos para sintomas de depressão, não saía, não fazia nada, e nem queria fazer. Meu apê parecia um chiqueiro e eu tava me achando velho pra fazer qualquer coisa. Tinha 32 anos e achava que tudo já tinha passado, que eu tinha perdido o trem da história e, agora, eu só podia lamentar.

– Você… nunca me falou isso.

– De fato.

– Por que você nunca me contou essa história?

– Por que você está na minha vida num contexto bem diferente. De qualquer forma, naquele dia da foto, uma quinta-feira, um colega de trabalho me viu sentando na mesa pela tarde com uma xícara de café, e viu que ia dar [email protected] Ele esperou que eu, com minha barriga imensa, batesse na mesa e derrubasse o café, o que não demorou nada. Assim que isso aconteceu ele se virou, me chamou e eu fiz aquela cara de “hã” irritado quando vi o flash. Não sabia se chorava ou se saía pra porrada.

– Puxa… E aí?

– E aí que ambientes cheios de nerds podem ser um tanto cruéis, mesmo entre pessoas acostumadas a serem zoadas a vida toda. E TI é um desses ambientes e, claro, que essa minha foto rodou o departamento todo até que finalmente alguém me jogasse a foto na mesa. Eu voltei pra casa derrotado. Mas, eu sempre soube que precisaria mudar. Então, resolvi que não ia ficar triste ou depender dos meus remédios. Saí atrás de uma banca de jornal e comprei um mapa do estado de São Paulo. E marquei todos os lugares que eu queria ir – as cidades, eventos, festivais, tudo.

– Foi assim que a gente se conheceu? Foi por causa dessa mancha de café?

– Posso dizer que sim. Eu fiquei o resto da noite na internet, planejando os locais, os eventos, as cidades, os bares e baladas. Me afundei no Facebook atrás de fotos de amigos e conhecidos que tivesse algum lugar para ir. Tinha passado a vida toda com medo e dependia de remédios. Seria bom mudar de ares um pouco. Não tinha coragem de ir morar fora, que tal passear de fim de semana pra começar? Um passinho de cada vez.

– Que luta! Tem certeza que você era assim?

– Esse ainda sou eu. Nunca reparou na minha mão suada? Eu ainda fico nervoso e inseguro por qualquer coisa. Você vai me dar uma travesseirada?

– Tô abraçada nela porque a história tá demais! Continua!

– Na sexta-feira eu mandei meu carro pra consertar tudo: pneus, amortecedor, óleo, tudo. E fui naquela noite pro festival das Flores, na Liberdade. Ali conheci o Kazuo, seu primo, na loja de mangás. Ficamos horas falando de mangá e desenhos japoneses, e a hora que eu notei, eu estava num bar japa tomando saquê com um monte de gente na mesa. No outro fim de semana eu tinha planejado ir pra praia, e quando chamei o Kazuo, ele me colocou no meio da bagunça com o pessoal.

– Então foi assim? Foi naquela viagem que a gente ficou pela primeira vez.

– Pois é. Aí eu vi que podia fazer o que eu quisesse. Aí fui pra tudo que é lugar de São Paulo.

– Por isso você tem um monte de coisa diferente no seu apê. Você viajava todo o fim de semana.

– Pois é. Com isso, eu consegui dispensar os medicamentos, limpar a tralha toda do chiqueiro, ganhei mais confiança e consegui até te chamar pra sair de novo. Mas eu consegui juntar a coragem pra ir viajar fora, aprender outra língua, mudar tudo.

– Por isso estamos no México?

– Quase. Estamos aqui porque eu quero aprender espanhol, e como agora eu trabalho remoto, não preciso mais estar na empresa, posso cumprir com minhas tarefas de qualquer lugar.

– E essa coragem toda vai ficar aí nessa cadeira? Vai deixar mesmo esse travesseiro no meu colo?

– Não. Mas minha mão ainda vai suar, meu coração ainda vai disparar e eu ainda vou sentir medo. Mas agora, vai com medo mesmo.