Maçãs, Drogas e o Caribe – Os dias em que Cuba me rejeitou (parte 1 de 2)

Mundo Afora com Eduardo Xerez - Cuba.02
Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Xerez

Aeroporto de Havana, desembarque, um cara descabelado, óculos na cabeça, vestindo bermuda, blusa de malha e chinelos (eu!) Achei estranho ter que passar por controle de metais novamente, se já o havia feito no Panamá. Fazer o quê… Passei, nada alarmou, peguei minha bagagem de mão e segui belíssimo (quero dizer, não tão belo assim) em direção à saída. Não dei três passos e já fui chamado pela senhora sentada ao bureau. “Vem cá!” Fui. “Você tem três maçãs na sua bolsa, não é?” Caramba! Tudo bem que minha bolsa passou pelo scanner, mas como a informação chegou até ela em questão de segundos sem eu nem perceber?! “Sim, tenho.” Friamente ela me avisou, “você tem que deixá-las aqui”. Hm, entrar com produtos vegetais geralmente não é permitido em um monte de países; entendo. “Tudo bem, mas vou comer pelo menos uma aqui mesmo. ‘Tou com muita fome.” Ela me deu uma olhada seca. “Não. Você tem que deixar todas aqui!” Assim o fiz. Pelo menos segui com a certeza de ter dado a alguém a oportunidade de saborear umas maçãs fresquinhas. Agora era só me encaminhar pra esteira, pegar meu mochilão e explorar a ilha. Nada disso!

Mundo Afora com Eduardo Xerez - Cuba.03
Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Xerez

Mais uns três passos e mais uma abordagem. Duas pessoas vestidas de branco. “Você vem de onde?” Concluí que era alguma coisa ligada a vacina ou algo do tipo. “Do Panamá.” Eles apenas fizeram um sinal, me dando passe livre. Eu já via a porta de saída. E adivinha só! Lógico, fui parado novamente. Um homem e uma mulher, policiais. Várias perguntas, principalmente sobre dinheiro. Com meu cartão de crédito em sua mão, ele me perguntou se eu usava drogas. Logo após minha resposta negativa, surge do nada um terceiro policial por trás de mim. “Mas nós temos informação que você usa, sim.” Aaahh, meu bem. Foi aí que minha paciência chegou ao limite. Com o dedo indicador apontando pra ele, soltei o verbo. “Não! Não! Não! Eu não uso drogas!” O outro reagiu. “Pois podemos fazer um teste, então.” Vamo’ nessa! “Pois vá pegar sua bagagem e volte aqui pra gente fiscalizar”. Só fui quando ele me devolveu meu cartão de crédito. Seguimos pruma salinha (só eu, ele e a mulher que não dava uma palavra. O que tinha informações sobre mim, drogas e tal, não veio junto). Lá ele passou um lencinho minunciosamente sobre a palma das minhas mãos, depois colocou o lenço num aparelho. Um sinal sonoro. “Negativo. Bem-vindo a Cuba!” Pro inferno! Mais irônica não podia ser sua atitude. Peguei minha mochila (que ele nem abriu) e finalmente coloquei os pés fora daquele aeroporto feio. No estacionamento mesmo achei uma van que ia pra Varadero.

Mundo Afora com Eduardo Xerez - Cuba.04
Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Xerez

Em Varadero fiquei no hotel Herradura, simples, mas na beira daquele esplêndido mar caribenho. Aparentemente eu era o único hóspede estrangeiro. Achei estranho o fato de haver vários cubanos fazendo férias lá. Pois imaginei ser algo luxuoso pra eles. E de certa forma, era. Mas entendi que tem uns privilégios pra alguns cidadãos e coisa e tal. Que ótimo! Assim eu conheceria Cuba como eu queria; interagindo com o povo local, longe dos resorts e grupos de turistas. É, não foi bem assim.

Mundo Afora com Eduardo Xerez - Cuba.05 (1)
Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Xerez

Nos primeiros momentos não quis acreditar que eu ‘tava sendo ignorado em qualquer tentativa de aproximação. Mas não pude mais negar tal fato, quando durante uma conversa no hall do hotel o simpático segurança foi interrompido por uma funcionária, fazendo algum sinal por trás de mim, o que resultou no segurança dando abruptamente dois passos pra trás e cortando o papo comigo. Poxa! Eu ‘tava até interessado nos golfinhos… Resolvi aceitar minha condição de persona non grata e curtir minhas férias sozinho. Deu certo até então. Eu só não imaginava que voltando pra Havana a situação seria completamente outra. Mais intrigante ainda! Você vai entender loguinho no próximo post.

Ay, um mojito, por favor!

Leia também:


Dado Xerez
Dado Xerez é mestrando, graduado em História da Arte e Ciências da Cultura pela Universidade de Leipzig, na Alemanha, onde trabalha como Mediador Cultural. Sua grande paixão é viajar pelo mundo, colecionando novas histórias e aprendendo com cada lugar. Já visitou até então mais de 70 países e, além da Alemanha, já viveu na Nova Zelândia, Malta e Camboja. Hoje conta suas aventuras na coluna Mundo Afora, aqui no Press Abroad. Fascinado por comunicação, ele domina com fluência o Alemão, Inglês, Italiano e Português e ainda desenrola no Russo, Francês e Espanhol.