Oi,

Fui convidada por uma amiga querida a escrever sobre a experiência que passei ao morar fora do país. Não sei bem por onde começar, e como isso, ironicamente, já é um começo, melhor explicar como tudo isso aconteceu.

Me “formei” em Publicidade e Propaganda e Relações Públicas com 22 anos. E embora as aspas tenham me trazido de volta, durante esse processo, levei uma vida pacata, morava sozinha em Campinas/SP e trabalhava em uma agência de publicidade. Me sentia independente e feliz, até ser demitida na véspera do feriado de Páscoa. Fui pega de surpresa e meu mundo desabou a caminho da praia, enquanto todos se divertiam; ÓH que legal! (Y)

Voltei da praia mais sem rumo do que fui. E ao desabafar com uma vizinha-amiga, ouvi a proposta mais maluca que já me fizeram até hoje:

–          “Estou indo de férias para a Alemanha ficar um mês, vamos comigo?!”

(…como se ela estivesse me convidando pra dar uma voltinha em Minas Gerais e voltar..tsc..aqui do lado, né?! Apenas 13hrs de viagem..)

paiii.Em tom sarcástico respondi que sim, e que falaria com o meu pai, na certeza de que ele barraria a loucura toda.. e fui dormir.

Voltei pra casa, conversamos e assim começava o frio na barriga.

A confirmação de algo que eu não estava preparada, o sim dele.

Ficar longe de casa, longe do pai, da mãe, da família, dos amigos, longe do meu porto-seguro, longe do meu pai. (..meu pai é bem importante, sabe?!)

Os dias foram passando, a compra da passagem, as despedidas com os amigos, a organização da mala, a mãe que tentava convencer a não ir.. e por fim, o dia que antecedia a viagem chegou:

Me deparo com um pai que sempre foi base, sempre foi força e valentia completamente acuado, calado e inseguro, na tentativa do que lhe restava de forças me deixar confiante, na tentativa de que mais uma vez eu acreditasse em mim mesma.

Percebi nessa hora, o motivo do sim.

Ele sabia que de outra forma, eu não sairia do conforto de ser inerte, não me desafiaria e não me daria outra oportunidade de me confrontar, confrontar meus medos, e assim, fui.

Os primeiros dias passaram e eu não senti muito, tudo era novidade, os passeios ajudavam e eu tinha em minha amiga um tipo de mãe, com direito a bronca e todo o pacote. Mas, às vezes, a coisa apertava, as ligações para casa eram sempre caras e curtas, e o arrependimento grande, por não ter ensinado o velho a usar Skype antes.

O mês foi passando, e a vontade de ficar crescendo.

Foi amor à primeira vista, pode apostar! Com o clima, a estrutura, arquitetura e o cuidado, tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo funcionava, e tudo muito bem.

(consegui ser clara com isso, né?!) :}

represa.crisEis que essa amiga me apresenta a uma amiga dela – uma brasileira que já estava lá por 20 anos, mas que eu posso chamar de anjo. Esse anjo me sugeriu a possibilidade de estadia na casa dela, já que eu teria mais dois meses com o visto de turista. Não pensei duas vezes e com a volta da minha amiga para o Brasil, imediatamente me mudei para a casa do anjo.

Cléa é o tipo de anjo atrapalhado, com mil coisas pra fazer distribuídas em suas  poucas 24 horas do dia. Então me propus a ajudá-la, mesmo com a pouca experiência que eu tinha. Eu arrumei sua casa, e ela, um curso de férias em alemão pra mim.

E  o caos do alemão definitivamente começou aí, nesse exato momento.

Percebi o quão encrencada eu estava quando, tímida e sem confiança alguma no meu inglês, nunca tendo contato anterior com o alemão, me vi em uma sala com russos, turcos, árabes, polacos e uma texana.

Foi como estar em um filme sem legendas.

As professoras só se comunicavam em alemão, e toda dúvida que eu tivesse, teria de ser feita em inglês. A resposta sempre era dada em alemão, e caso não entendesse, em inglês, e se eu não entendesse no inglês, significava que eu tinha que me virar em casa. o.0 …foi bem difícil.

O que acalmava meu coração era saber que na casa da Cléa eu poderia ligar para qualquer telefone fixo no Brasil e falar pelo tempo que eu quisesse. O apoio da família nessa hora foi essencial, e eles me davam forças para seguir adiante.

Mais um mês se seguindo e eu queria mais, estava crescendo a olhos vistos e não queria parar. Surge então a ideia de trabalhar como Au-pair. Adorava crianças, pensei que não haveria problemas. Tratei de colocar um anúncio no jornal.

O anúncio, claro, teria de ser em alemão, e com a ajuda de um amigo, fui até o jornal da cidade. Saí de lá com a promessa de que no sábado o anúncio estaria lá, e meu futuro na Alemanha se estenderia. Assim como no Brasil, paga-se por espaço. Tentei ser breve, deixei a proposta e o telefone de contato da Cléa, fui embora cheia de esperança.

O pior aconteceu, e a peço desculpas até hoje pelo mal entendido.

Não especifiquei onde colocariam o anúncio, e logo pela manhã, começam a ligar para ela, que havia esquecido do anúncio e desligara o celular, devido ao porre da noite anterior. Quando ela se dá conta, e novamente liga o celular, pessoas com propostas indecentes, pensando que o “tal trabalhinho de cuidar de crianças” era de cunho sexual. Ela ouviu grandes baixarias nesse dia, coitada. (hahaha).

Entre esses, duas famílias reais interessadas, uma retorna. Deixam o telefone e lá fomos nós ao encontro. Família alemã, aparentemente adorável, duas crianças, um garoto de 12 e uma menina de 14. Olha que bom, né?!

Me mudo na semana seguinte, com as únicas duas malas que eu tinha, e um cão imenso de pelúcia dado pela Cléa, para as noites de solidão.

Foi mais que um excelente presente. Aquele aglomerado de pelos brancos e empoeirados acabou se tornando o abraço desejado, o ombro, minha família.

E não me levem a mal, mas acabei aprendendo que na terra de “tão, tão distante”, não a nada pior que angustiar quem se ama com as suas angústias, os seus medos e os seus fracassos. Eu tinha um cachorro e por dias, nenhum dinheiro no bolso, mas por mais que meu pai perguntasse se eu precisaria, eu dizia sempre que não. É assim que a gente cresce.

Peguei confiança no inglês, e saí pro mundo, quem diria.

fmediev

Perdi o medo de mim. Ri, chorei, me perdi, me encontrei, encontrei amigos, chorei com a partida deles, vivi, me perdi mais um pouco e aprendi muitíssimo nessa casa, nessa experiência, nesse país.

Me libertei de um “eu” que me puxava pra baixo, me diminuía e aprendi que a grande viagem nunca acaba quando existe autoconfiança e os benditos 05” de coragem.

Eles me levaram até lá, eles me trouxeram até aqui, e certamente me levarão de volta. Quero acumular muitos segundos como esses, de profundo e imenso aprendizado, autoconhecimento e desenvolvimento. E quero incentivar quantos eu puder para que embarquem nessa viagem comigo.

escola

Tenho ainda muita história pra viver.

Tenho ainda muita história pra contar.