Você já deve ter ouvido expressões como: ex-imigrantes, expatriados, síndrome do regresso, depressão pós-intercâmbio, e por aí vai…

Os motivos são os mais diversos. Crise financeira, término do visto, compromissos pré-assumidos com trabalho, família, saúde, enfim, saudades. Porém, independente do motivo, o caminho de volta para o país de origem quase sempre é dolorido, e este retorno pode causar depressão.

Esta patologia foi “batizada” com o termo “Síndrome do Regresso” pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa, que estudou por muitos anos a frustação de brasileiros que voltavam ao país após uma temporada de trabalho em fábricas japonesas.

A viúva de Décio, falecido em 2011, relatou à reportagem do jornal Folha de S. Paulo uma estatística muito interessante. “A adaptação em um país diferente acontece em 6 meses, já readaptação ao país de origem demora 2 anos.”, disse a psicóloga Kyoko Nakagawa, viúva do psiquiatra e coordenadora do projeto Kaeru, de reintegração de crianças que voltam do Japão.

Deus-costuma-usar-a-solidão-para-nos-ensinar-sobre-a-convivência.-Às-vezes-usa-a-raiva-para-que-possamos-compreender-o-infinito-valor-da-paz.Paulo-Coelho1

Conversamos com uma ex-intercambista, Priscilla Viegas, que expôs seus sentimentos e contou como ela percebeu os sintomas da “Síndrome do Regresso”.

Para onde você foi e quanto tempo ficou?

Eu fui para Dublin/Irlanda em setembro de 2012. Afastei-me do meu trabalho no Brasil porque queria estudar a língua inglesa e também fazer um intercâmbio, que era um sonho antigo. Fiquei um ano lá e retornei ao Brasil no final de agosto de 2013.

Você queria voltar para o Brasil? Se não, voltou por quê?

Por muitos momentos durante esse um ano eu quis voltar, devido à minha família e toda comodidade que tenho aqui. Viver em um país diferente não é tarefa fácil, demora um tempo para se acostumar, porém, o ser humano tem uma incrível facilidade de adaptação.

Nos últimos meses tive alguns questionamentos para decidir se ficaria lá, mas eu tinha questões de saúde para resolver aqui, tinha muitas saudades da minha família, tinha data para retornar ao meu trabalho e também queria saber como me sentiria aqui novamente.

 Há quanto tempo está de volta ao Brasil? Os primeiros sintomas da depressão pós-volta começou quanto tempo depois?

Voltei há nove meses, e ainda às vezes, me sinto como se estivesse vivendo lá. Os sinais de depressão começaram já nas primeiras semanas aqui no Brasil.

Quais são os sintomas, sinais, sentimentos?

O retorno não foi como eu pensei, não pela família, trabalho etc…Tive ótima recepção e muito carinho. Digo eu comigo mesma, me sentia diferente, triste, um nervoso inexplicável, um sentimento de vazio, sentia-me melancólica, com dores no corpo, fora do contexto, sentia que faltava algo. Chorei muito, vivia triste, isolada, não queria muito contato social. Nos primeiros meses queria pegar o primeiro avião e voltar para lá.

Você está fazendo acompanhamento médico?

Atualmente faço acompanhamento psicológico, aliás, que demorei um pouco a procurar. Hoje reconheço que deveria ter começado quando os sintomas apareceram, mas achei que iria conseguir lidar com isso sozinha, já que fiquei um ano longe e aprendi a lidar. Achei que seria mais fácil a readaptação, mas comigo não foi.

Não procurei médico, não quero tomar nenhuma medicação no momento. Quero trabalhar as minhas emoções, isso não pode ser patológico, eu acho.

Como funciona? Tem ajudado?

Faço terapia semanalmente. Estou aprendendo a viver o momento agora, o que passou já foi. Vivi muito bem esse um ano fora do Brasil, aproveitei bastante, mas tenho que entender que acabou. Mesmo que um dia eu retorne para lá, será diferente, nunca será igual.

Eu não posso dizer que a vida é melhor aqui ou lá. Ambos os lugares têm coisas boas e coisas ruins, por isso a terapia tem me ajudado a entender e a perceber que não posso estar nos dois lugares, e sim aproveitar a intensidade do momento e viver onde estou. Se estivesse lá talvez estaria sentindo o mesmo pelo Brasil.

Qual é o seu olhar perante a situação agora?

Eu tento viver o presente e as coisas que devo fazer agora, e não ficar pensando em como era a vida lá, etc… Mesmo porque, para mim, a vida é boa aqui. Tenho minha família, meu emprego, meus amigos, minhas coisas, meus projetos.

Mas me sinto mudada internamente, o que às vezes é difícil conciliar os meus sentimentos internos com a realidade atual.

Somos muito ligados as emoções e ela que nos motiva e nos desmotiva, tenho que entender que essa fase passou e que pode surgir novas oportunidades, seja na Irlanda ou em qualquer lugar do mundo. Mas, para aproveitar e conseguir enxergar, preciso estar bem com as minhas emoções, com os meus sentimentos, pois caso contrário, nenhum lugar estará bom o suficiente e me preencherá por inteiro.

 *Imagens Reprodução


Cristina Lima
É formada em Jornalismo pela UNISO (Universidade de Sorocaba), e pós-graduada em Gestão da Comunicação Integrada pela Metrocamp em Campinas/SP. Passou também por muitas escolas de comunicação pelo Brasil e no exterior. Cristina vive entre entre a Irlanda e São Paulo, adora viajar, conhecer novos lugares, novas culturas e novos amigos.