mulher-com-baloes1Eu sei, eu sei: carma tem a ver com o reflexo de nossas atitudes. Mas acho que não estou errada. Quem leu ou viu o filme “Comer, Rezar, Amar” vai saber o que eu estou dizendo.

Pelo menos a parte do meio, rezar. Eu fiz isso por quinze dias Meu nome é Renata, e sou designer gráfica; ou seja, trabalho demais e ainda tenho que ouvir de cliente que meu trabalho é fácil, ou perder noites trabalhando e ver tudo ir por água abaixo. Perdi as contas de quantas vezes pensei em concurso público e abandonar a área.

Não sou exatamente o píncaro do sucesso: tenho 29 anos, solteira e moro com meus pais. Nunca saí do país e há tempos não tenho dinheiro para nada, só pagando cartão de crédito e dívidas. Foi quando eu resolvi que estava na hora de rever algumas coisas. Comecei vendendo meu carro para pagar minhas dívidas, e terminei pegando minhas férias – que estavam em haver fazia dois anos.

Com a grana que recebi – mais a que sobrou – fui fazer algo totalmente diferente: fui para um monastério na Tailândia. Nunca meditei na vida, e nem acredito em chi, ou forças especiais, e até hoje me digladio com Deus. Mas eu queria mudar. Desconectar. E repensar minha vida, e se tudo o que eu estava fazendo fazia algum sentido. Amava o design e a publicidade, mas não queria mais me irritar tanto por tão pouco, ser uma chaleira no instante de apitar.

Não estava trás de paz, estava atrás de… sei lá, alguma orientação. E quando eu vi que ir pra um monastério custava uns 150 reais, e a viagem toda eu poderia parcelar, eu nem pensei. Superficialmente, eu falo que foi uma experiência desconcertante. Sem comunicação nenhuma com o mundo – apenas eu e mais algumas pessoas ao redor do mundo, e sem poder falar. Sério, a gente não pode falar. Mas eu preciso dizer: acho que encontrei o último pedaço do paraíso.

Passado o tédio e o desespero inicial, o silêncio acaba sendo como um banho de banheira para a mente. Ainda superficialmente, a ausência de luxos e o contato com a natureza – você não pode matar nem os mosquitos, veja só – são perturbadores para nós, homo sapiens urbanus. Superficialmente, posso dizer que foi uma péssima ideia: a praia teria sido mais interessante. Mas, eu não fui lá para ser servida, fui lá para mudar alguma coisa. Passados três dias de tédio e risadinhas contidas – sério, 60 pessoas juntas em silêncio durante um almoço vegetariano estranho é pedir para rir – eu entendi finalmente o que é meditação: prestar total e completa atenção a respiração, no ar entrando e saindo.

Mesmo sentada por horas na mesma posição, e começando a doer, eu entendi. A sensação foi… bem, não dá pra eu te falar. Você mesmo terá que sentir, não dá pra falar, sério. Saber conviver com a natureza, ficar em silêncio, ouvir a vida e meditar me deram uma nova energia. Eu quase não quis pegar meu telefone de volta, sabendo que ali haveria centenas de mensagens da agência, e uma provável demissão.

Afinal, uma diretora de arte que não responde nas férias sobre o cliente tal boa pessoa não deve ser. Eu ainda tinha dez dias de férias em casa. Só liguei meu telefone quando cheguei de volta em casa, depois do táxi me deixar. A primeira coisa que minha mãe me disse quando eu cheguei foi: “você está tão em paz que eu estou ficando com sono”.

Não liguei meu computador, nem entrei no Facebook para postar as poucas fotos que bati. Meus pais ouviram com tanta atenção do que eu vivi, que acho que ano que vem o monastério vai receber dois interessados a mais. Se eu mudei minha vida depois disso? A viagem em si não é life-changing, mas ajuda a entender coisas sobre si mesmo, e sobre o que você realmente quer para si.

Acabei saindo da agência e restabelecendo contatos, passando a viver como freelancer e consultora, e acredite, saber viver com menos faz uma diferença absurda na sua conta bancária. Entendi que viver de publicidade não te deixa imune a ela. E que boa parte do barulho que nos apressa e consome é gerado dentro de nós, resultado de muitos desequilíbrios.

Foram quinze dias. E ano que vem, serão quinze dias de novo. Quer vir junto? Feliz

*Imagens Reprodução

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