Quem viaja pelo mundo já esbarrou por várias esculturas e monumentos pelas ruas, muitos considerados grandes obras de arte. Mas hoje viemos falar sobre as estátuas urbanas de Madri; peças construídas com o propósito de embelezar e preencher de forma artística diversos pontos da cidade com uma mensagem reflexiva da sua sociedade.

Se você conhece a capital espanhola, sabe que a cidade está cheia de monumentos. Contudo, além deles, há várias estátuas que não são bem conhecidas e muitas vezes passam despercebidas. Elas estão quase todas concentradas em sua zona central, sendo muito fácil visitar todas a pé.

Não são esculturas, monumentos, nem estátuas em um pedestal. São estátuas em seu próprio conceito, que podem ser confundidas com uma pessoa de carne e osso, representadas de forma mais realista possível em atividades ou atitudes cotidianas, naturais e realistas em suas poses, estruturas, formas e tamanhos a qualquer ser humano. O curioso é que todas são de tamanho real e cada uma delas tem uma história, diretamente relacionada à própria história da cidade.

Vamos começar?

O gari de Jacinto Benavente (El Barrendero de Jacinto Benavente)

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Foto: wikipedia

Na Plaza de Jacinto Benavente, alguns metros da Puerta del Sol, se encontra a que é, provavelmente, a estátua urbana mais conhecida e famosa de Madri, pois está situada em pleno centro da cidade, por onde passam milhares de pessoas todos os dias.

Oficialmente chamada de “gari madrilenho de 1960“, foi colocada em 2001 em homenagem aos garis por tentarem fazer com que Madri fosse uma cidade mais limpa. Com traje tradicional dos varredores de rua de Madrid nos anos 60, com vassoura na mão e limpando a rua, curiosamente também é a estátua urbana mais discreta e que passa despercebida, talvez por causa de sua pose mais do que realista.

Vale lembrar que Madri é uma das poucas cidades do mundo que fez homenagem aos garis com uma escultura.

Onde está e como chegar: Plaza de Jacinto Benavente. As estações de metrô mais próximas são Sol e Tirso de Molina, a menos de 5 minutos a pé.

O vendedor de cupons da Plaza de las Cortes (El Vendedor de Cupones de la Plaza de las Cortes)

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Foto: derelojesyestatuas.es

Obra de grande simbolismo, chamada de “Fortunato“, é uma homenagem à figura tradicional de vendedor de cupons da ONCE (Organização Nacional de cegos espanhóis). Em muitos cantos da cidade, esse vendedor de cupom dos anos 60 se estabelecia com sua carteira, seus cupons pendurados no pescoço, óculos escuros redondos e bengala pendurada no braço. Representava uma pessoa admirável de grande integridade e exemplo de superação, figura que faz parte da paisagem urbana e da história do país há mais de 75 anos.

É uma estátua muito recente, que apesar de seu simbolismo importante, não é de longe uma das mais famosas ou conhecidas de Madrid.

Onde está e como chegar: Calle San Agustin em frente a Plaza de las Cortes. As estações de metrô mais próximas são Sevilla e Anton Martin, a menos de 5 minutos a pé.

O toureiro agradecido (El Torero Agradecido de Las Ventas)

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Foto: espanabizarra

A Plaza de touros de Madri é a maior da Espanha e considerada a mais importante do mundo. Inaugurada em 1931, é um autêntico ícone da cidade por suas touradas e por seu espetacular design e arquitetura “neomudejar” (obras arquitetônicas com formas abstratas de ladrilho e arcos em forma de ferradura).

Juntamente com toda a beleza da Plaza de Toros, fica a estátua urbana mais diferente de todas, tanto pelo contexto quanto por suas dimensões, já que é maior em comparação com o tamanho natural do ser humano. Há um busto de Alexander Fleming (médico, farmacologista, biólogo e botânico britânico) e, ante dele, um toureiro com um chapéu na mão fazendo um gesto de agradecimento.

A história por trás dessa cena deve-se a que os toureiros sofriam infecções graves derivadas das touradas e, embora estas não fossem fatais, as lesões e infecções subsequentes poderiam causar a morte. Graças ao britânico, que em 1928 descobriu a penicilina e seu grande avanço médico, os toureiros puderam respirar parcialmente aliviados, já que seus ferimentos não iriam infeccionar! Em homenagem ao Doutor Fleming e sua penicilina, o mundo das touradas e o escultor Emilio Laiz levantaram este monumento em 1964.

Onde está e como chegar: Plaza de Toros de Las Ventas. A estação de metrô mais próxima é Ventas, alguns segundos a pé.

A estudante de Malasaña (La Estudiante de Malasaña)

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Foto: espanarusa.com

Considerada uma das mais enigmáticas por sua história, encontra-se no bairro alternativo, cultural e festeiro de Malasaña. Não se sabe ao certo se foi inspirada em uma lenda ou se realmente a história é real.

Na Madri do século XIX, quando o acesso à universidade estava permitido somente a homens, Julia, uma mulher astuta, inteligente e à frente de seu tempo, queria estudar, aprender e evoluir. Assim, arranjou um método para acabar com aquela norma e assistir às aulas da Universidade de Madri: disfarçar-se de homem.

Chamada de “Depois de Julia”, o autor da obra se baseou nessa história de luta e superação para sua estátua, que representa uma estudante esbelta, atrativa, com seus livros na mão e suavemente encostada na parede. Pelo que se conta é também uma homenagem tanto à própria Universidade Central de Madrid como a Concepción Arenal, como a primeira mulher a estudar na universidade da Espanha.

Onde está e como chegar: Calle Pez, 42. A estação de metrô mais próxima é Noviciado, alguns segundos a pé.

O vizinho curioso (Un Vecino Curioso en la Calle Almudena)

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Foto: wikipedia

Na Calle Mayor se encontram importantes restos das Ruínas del Abside da Igreja de Santa Maria de Almudena, considerado o mais antigo templo de Madri.  De origem incerta, se crê que era do século XI, fazendo parte do patrimônio histórico e cultural da cidade.

Em 1868, devido à remodelação da Calle Mayor y da Calle Bailén, a igreja foi derrubada, perdendo-se com ela grande parte da história que trazia. Mas como as ruínas deveriam ser preservadas, já que eram uma pequena parte da importantíssima historia de Madri, foram restauradas em 1999. Foi construída uma cristaleira acima delas com uma placa e uma maquete de como eram as construções das ruínas para visualização por todos que passam por ali.

Para dar maior importância a estas ruínas, foi encomendado ao escultor Salvador Fernández-Oliva um projeto que fizesse destacar tal espaço, o qual criou a figura de um indivíduo que passou a ser chamado de o “vizinho curioso”. A estátua urbana fica apoiada sobre a estrutura que protege os restos arqueológicos debaixo dos vidros. Com um olhar admirando as ruínas do passado, parece não enxergar apenas as obras, mas também como o tempo passa! Assim, o vizinho curioso é o autêntico centro das atenções mais do que as ruínas em si.

Onde está e como chegar: Calle Almudena esquina com a Calle Mayor. A parada de metrô a pé.

O leitor da plaza de la Paja (El Lector de la Plaza de la Paja)

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Foto: espanarusa.com

Sentado em um banco de granito, quase imperceptível, alheio à beleza que o rodeia, está o “Leitor da Plaza de la Paja” que, desde 1997, lê seu eterno jornal em uma pose tão altamente realista (o próprio autor foi a referência) que é impossível não confundi-lo de longe com uma pessoa real sentada no banco com a perna direita sobre a esquerda lendo o jornal, e com a cabeça que indica que está de fato lendo enquanto aponta com sua mão o texto gravado: “entre todos reabilitamos Madri”.

Uma mensagem enigmática e atemporal, como um jornal eterno que nunca vai acabar, que faz pensar e refletir. Sua naturalidade e seu simbolismo são espetaculares e convidam a uma pequena reflexão enquanto se acompanha um jornal ou um livro.

Onde está e como chegar: Plaza de la Paja. A estação de metrô mais próxima é a América, a menos de três minutos de caminhada.

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Paula Granado
Paula é pedagoga, mestre em Educação, designer de interiores, nômade e pesquisadora. Falar sobre artes, cultura e educação faz parte de sua essência. Adora viajar, conhecer novos lugares e estilos de vida. Já morou em Dublin, Salamanca e atualmente vive em Barcelona. Especialista no tema “cidadania e nacionalidade estrangeira”, sonha com o dia em que existirá uma lei que obrigue todas as pessoas a viajar e explorar lugares desconhecidos!