China_mannynO brasileiro José de Almeida, mais conhecido como Mannyn ou Maninho, tem 37 anos, é natural de Apucarana (PR) e está morando na China há praticamente dois anos. Essa foi a primeira experiência dele morando fora do país. A escolha por uma cultura tão diferente veio por causa de uma oportunidade de emprego. Mannyn é professor de artes marciais, ou melhor, Brazilian Jiu-jitsu e MMA (mixed martial arts).  E foi já no trabalho que os desafios começaram. “Apesar de todos acharem que os asiáticos nascem com sangue marcial nas veias, meu trabalho é bem incomum por aqui. Estou aqui com a tarefa de difundir esse esporte que nasceu no Japão, foi aperfeiçoado no Brasil e virou referência mundial em artes marciais”, explica ele.

O país como um todo é muito diferente – a cultura, os costumes. Mannyn conta que os sanitários não passam de um vaso de porcelana no chão. O trânsito também não é fácil. Carros e motos transitam livres nas áreas que seriam para as bicicletas e ou calçadas e usam esses espaços como estacionamento. E é buzinadas para todos os lados! Você pode encontrar chineses andando de pijamas pelas ruas.

Em entrevista ao Press Abroad, o brasileiro fala como é o país e todos os desafios enfrentados por ele até agora.

Qual foi sua primeira impressão?

A primeira sensação foi de receio – a China é um país desconhecido para nós ocidentais. O que temos de informações não chega a 40% do que realmente acontece aqui. Após um curto período de tempo pude perceber que o povo é muito amigável. São muito curiosos quanto a nossa cultura e talvez até mais do que nós quanto a deles.

Como é a aproximação com os chineses?

china_pessoasNão tenho amigos chineses, tenho vários conhecidos. A maioria são frequentadores da academia onde dou aula. São muito atenciosos e me ajudam bastante. É difícil ter uma amizade com um chinês, eles demonstram curiosidade para praticar o inglês, mas logo perdem o interesse e somem do seu convívio. Meus amigos são estrangeiros. Aqui, mais do que em outro lugar, essa ‘’classe’’ é mais unida por conta da enorme diferença de cultura, hábitos e da língua – poucos chineses falam inglês.

Como você se sente morando em um país tão diferente?

Não sei se posso responder a essa pergunta mesmo depois de estar morando aqui há dois anos. Sinto-me confortável, ou acostumado com alguns dos costumes. Ainda me sinto como “um pássaro fora do ninho”, mas aprendi a lidar com as pessoas e com a diferença cultural. Não é fácil morar aqui sem entender as ‘’regras”.

A alimentação é mesmo um desafio?

china_pimentaSim e sim. Você fatalmente acabará provando alguma ‘’street food’’ por aqui. Tudo é muito apimentado, quente, com alho cru, muitos vegetais, ovos e tofu. Chinês não é muito fã de carne e prefere, na seguinte ordem, carne de porco, ovelha e frango. Por não terem criações de gado, a carne bovina é cara e poucos a consomem. Carne de cachorro eles comem, mas não em qualquer restaurante. É proibido o comércio de carne de cachorro em muitas cidades. Existe mais ao sul ou perto da Mongólia, onde oferecem não só a carne como a pele para enfeites ou casacos. Os cachorros só começaram a serem vistos como animais de estimação aqui anos 90. E sobre insetos? Você vai achar muitos insetos para degustar em algumas cidades nas feiras e nas ‘’street food’’, mas chinês não come inseto. Quem come são os estrangeiros e turistas.

Como você enfrenta a distância da família e amigos do Brasil?

A saudade é um divisor de águas – se você não tiver uma “cabeça boa”, paciência, não vai conseguir cumprir seu contrato (que normalmente é de um ano). Já vi muitas pessoas pedindo cancelamento e até fugindo do país. Pensei várias vezes em desistir, porque não tinha contato nenhum com minha mãe ou minha avó. Fiquei meses sem falar com amigos. Vim sem saber dos bloqueios do governo a sites estrangeiros, tal como Facebook e Google. Ligações são extremamente caras. Meu contato era por email. Com o tempo fui descobrindo atalhos e soluções – como um programa que burla o sistema e remete seu IP para outro país permitindo acessar os sites com velocidade mais baixa que o normal e caindo várias vezes, além de ser um programa pago. Depois comecei a usar o Skype que ainda não tem restrição e ameniza um pouco a saudade.

Que dicas você deixa para quem quer visitar ou morar na China?

China_turismoA China é um lugar lindo e misterioso. Vale muito visitar o país, mas é bom conhecer as leis – pois é um país comunista onde as leis são rígidas, não tem acordo de extradição  e nem auxílio da embaixada. É tudo muito seguro, as ruas são calmas e tranquilas, mas é bom não abusar. Ficam ainda algumas dias:

  • Faça uma cópia de seu passaporte ou carregue ele consigo bem protegido;
  • Cuidado ao andar pelas ruas – pedestres não têm preferência;
  • Taxistas não falam inglês. Mostre o destino ou pergunte antes se ele o levará para onde você deseja ir, caso ele ‘’não queira’’ ele o fará descer do táxi;
  • Tenha sempre consigo um tradutor digital ou dicionário de Chinês/Português ou Chinês/Inglês;
  • Evite banheiros públicos, tente achar um shopping ou uma loja;
  • Ande sempre com lenços de papel no bolso ou na bolsa, são raros os lugares que têm guardanapos ou papel higiênico;
  • Cuidado com notas falsas de dinheiro e tente pechinchar – os chineses adoram discutir preços e você poderá fazer uma boa compra com um belo desconto;
  • Respeite o prazo do seu visto ou terá problemas sérios;

No mais é seguir as dicas acima e aproveitar as férias para viajar tanto dentro do país como ao redor dele. Brasileiros não precisam de visto em muitos dos países vizinhos como Tailândia, Vietnã, Bali, Malásia, Singapura e Hong Kong – sim, Hong Kong não faz parte da China, exigindo visto e tendo sua própria moeda. Arrume a mochila e boa viagem!!!

Fotos: Arquivo pessoal

Encontrou um erro? Quer sugerir uma pauta? Ajude-nos a melhorar nosso conteúdo. Envie um e-mail para: [email protected]


Marciéli Palhano
Jornalista brasileira, nômade por natureza. Adora conhecer pessoas, histórias e lugares diferentes. Se tiver comida boa, uma bela paisagem e gargalhadas, não precisa de mais nada. Diagnosticada com doença celíaca e intolerâncias alimentares, criou o projeto Zero Gluten & Lactose: www.zeroglutenlactose.com