A harpa é um símbolo musical muito especial para os irlandeses, mas o tamborim, o pandeiro, a cuíca, o chocalho e todos os demais instrumentos da batucada também conquistaram o respeito de alguns deles. Há seis anos, uma turma bem divertida faz a alegria de turistas e moradores de Dublin com apresentações musicais em festas, grandes eventos ou até mesmo pelas ruas da cidade. O estilo é o samba tipicamente brasileiro que eles levam nos pés, nas mãos, mas que só fica completo mesmo depois de fazer pulsar os corações dos integrantes.

Morro 16_2São cerca de vinte homens e mulheres de diversas idades que em algum momento de suas vidas foram “tocados” pelo samba. O entusiasmo é tão grande que não permite distinguir irlandeses de brasileiros. A integração também está estampada na identidade do grupo – “Morro 16” ou “Morro Sixteen” como o chamam. A referência para o nome é um espaço na arquibancada do estádio Croke Park que ocuparam durante um jogo amistoso entre Brasil e Irlanda em fevereiro de 2008. Os irlandeses, que já se identificavam com samba, encontraram alguns brasileiros e decidiram montar um bloco. Não demorou um mês para a primeira apresentação no St. Patrick’s Festival – o evento mais tradicional da Irlanda.

O grupo

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Morro 16 em Paris

A história de cada integrante tem um pouco da magia do samba. A de Caroline O’Dea, uma das fundadoras e diretoras do “Morro 16”, já não pode ser contada sem ele. A paixão pelo ritmo aconteceu de uma forma inesperada. “Eu estava em um show em Londres e ouvi um grupo tocar samba. Aquilo me deixou paralisada. Fiquei arrepiada com aquela batucada, mas não sabia onde encontrá-los. Um dia, na rua, vi uma pessoa com a camiseta deles. Parei a pessoa e consegui o endereço desse grupo. Foi com eles que aprendi samba”, conta ela com um sorriso no rosto, como se tivesse voltado no tempo, há vinte e seis anos. O samba está nos CD’s que Caroline compra, nos momentos de descanso e na família da irlandesa. O marido e até a filha de dez anos estão no grupo.

Foi da música clássica, para o rock, depois bateria que outra irlandesa descobriu o samba. “Na verdade, acho que foi o samba que me descobriu”, conta Grace Berkery. “Um dia um amigo escutou um ‘som’ na rua e veio me chamar porque achou que eu me identificaria com o ritmo. Fui atrás para ver do que se tratava e descobri a batucada”, complementa. E Grace não apenas descobriu o samba como o levou para outras pessoas na Irlanda. Ela foi a entusiasta de uma brasileira que nunca tinha se aproximado de um instrumento de samba, mas que agora não quer largar o tamborim. “Eu não entedia nada de samba e, hoje, fico super orgulhosa de tocar em um bloco de samba na Irlanda. É emocionante aprender samba com os irlandeses”, revela Aline Ballesteros.

“Que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz”

Morro 16O samba enredo Liberdade está entre um dos mais tocados pelo “Morro 16” e o trecho “que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz” carrega um pouco da filosofia do grupo. Novos integrantes são sempre bem-vindos, mesmo aqueles que até então não descobriram seu talento no samba. Essa descoberta aconteceu com um passista brasileiro que faz parceria com o bloco nas apresentações. Trazendo do Rio Grande do Sul apenas o gosto pela dança, no primeiro contato com alguns integrantes do “Morro 16”, quando inspirado pela música improvisou um passos num restaurante onde parte do grupo tocava, Diego Piazza Suvay descobriu uma nova paixão. “Eu fiquei sabendo do grupo num sábado de dezembro e no domingo fui para o meio da Grafton Street para uma apresentação de Natal com eles”, lembra. Dedicado a levar a alegria do povo brasileiro para as pessoas, Diego tem o sorriso como marca registrada, mas o samba no pé e o gingado são cuidadosamente estudados. “Sempre peço para alguém gravar minhas apresentações e tento melhorar os passos, porque quero mostrar sempre o melhor”, explica.

Mesmo colecionando diferentes apresentações, até em casamentos irlandeses, Diego carrega com ele a sensação do primeiro dia em que caiu no samba para um público. “Foi muito emocionante. A Grafton Street parou. Os primeiros minutos foram tensos, mas depois eu chamei as crianças para entrar na roda. Ver os pais incentivando os filhos a dançarem samba foi motivador” afirma o brasileiro que já se apresenta apenas como “Um Passista em Dublin”.

O samba, que é o passatempo preferido dos integrantes do bloco, já conquistou pessoas de toda a Irlanda e até da Europa. O “Morro 16” sambou nas ruas de Paris e pensa em um dia sambar também no Brasil. Mas enquanto o encontro com o Brasil não chega, o encontro é com quem quiser “chegar junto” aonde o grupo for.

Como participar: O contato pode ser pelo e-mail [email protected] ou pela rede social aqui.

Fotos: Jullian Brandão

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Marciéli Palhano
Jornalista brasileira, nômade por natureza. Adora conhecer pessoas, histórias e lugares diferentes. Se tiver comida boa, uma bela paisagem e gargalhadas, não precisa de mais nada. Diagnosticada com doença celíaca e intolerâncias alimentares, criou o projeto Zero Gluten & Lactose: www.zeroglutenlactose.com