Um número cada vez maior de universitários aproveita o valor da verba bancada pelo Governo Federal, que chega a R$ 60 mil, cursa apenas duas disciplinas no semestre e usa boa parte do intercâmbio acadêmico para viajar pela Europa

“É muito engraçada a fama que o estudante brasileiro tem aqui nos Estados Unidos. Todo mundo pensa que somos ricos: porque todos os bolsistas do Ciência sem Fronteiras [CsF] têm um Apple [notebook que pode custar até R$ 4,2 mil], um iPhone 5 [celular que vale R$ 3 mil], roupa de marca que compramos aqui e porque viajamos quase toda a semana para uma cidade diferente”, diz um universitário que estuda nos EUA pelo programa do Governo Federal.

O jovem, que preferiu não se identificar, cita os benefícios gerados pela verba que o programa oferece ao candidato selecionado para estudar por até um ano e meio lá fora. O programa, que tem uma meta ousada de enviar 101 mil estudantes ao exterior até 2015 – em sua maioria alunos de graduação -, já mandou mais de 50 mil desde 2011. Cerca de 80% deles são universitários que ainda não finalizaram o curso superior. O custo total do programa é de mais de R$ 3 bilhões.

Somando todos os auxílios, cada bolsista do programa custa, aproximadamente, R$ 60 mil por ano, Isso sem considerar o valor repassado diretamente à instituição de ensino pelo governo, o que isenta o estudante de qualquer despesa acadêmica. Pelo CsF, o aluno recebe verbas específicas para a viagem, acomodação, alimentação, compra de material didático e também recursos para aquisição de equipamentos eletrônicos, como computadores portáteis.

Confira, em detalhes, o extrato ao qual o iG Educação teve acesso com o valor discriminado de todos os benefícios. Os valores podem variar a depender da localidade de cada bolsista, da época da viagem e do período de permanência:

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“Retirando essas despesas de manutenção, ainda temos uma espécie de ´salário´ no valor de mais de R$ 20 mil. Essa é a quantia que utilizamos para o dia dia e para manter a vida social”, enumera Breno Barcellos, 21 anos, estudante da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), que voltou do intercâmbio no Reino Unido em janeiro deste ano.

ais benefícios, contudo, têm sido desvirtuados por um número cada vez maior de estudantes – não foi o caso de Barcellos. Esses alunos, ao perceberem a pouca supervisão de suas universidades no Brasil (confira a reportagem sobre o assunto), matriculam-se em apenas duas disciplinas no semestre e se aventuram no “Turismo sem Fronteiras” – expressão que vem sendo utilizada pelos próprios estudantes.

4pdgrufn08hr6k9cgh5urnada“Os bolsistas dos primeiros editais tinham um perfil mais responsável; agora, tem muita gente querendo fazer só farra. É vergonhoso. É o ´Turismo sem Fronteiras´ junto com o ´Cerveja sem Fronteiras´”, conta Barcellos. Durante sua estadia no Reino Unido, o jovem trabalhou em um seção que auxiliava estudantes brasileiros enviados pelo programa e teve contato com vários bolsistas do País.

“A única coisa que todos sabiam era a proibição de viajar para o Brasil durante a vigência da bolsa. De resto, as pessoas viajavam pelo país onde estavam e pela Europa. Não se avisava a ninguém. O CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; uma das agências federais responsáveis pela coordenação do programa], não fazia nenhuma fiscalização”, diz Barcellos.

Mochilão na Europa

Foi esse panorama que estimulou as aventuras de um jovem estudante bolsista do programa na Europa, que prefere não dar detalhes de identificação. Se as experiências na faculdade foram limitadas, o que viveu fora dela foi bem diferente. Administrando as duas disciplinas que cursava, o estudante conseguiu a cada semana viajar para várias cidades e países diferentes.

Na França, foram mais de 16 cidades visitadas, do extremo norte ao extremo sul. Ele ainda visitou três cidades britânicas, a Holanda, três cidades espanholas, quatro italianas, além de outras localidades no norte do continente africano. As viagens eram tantas que não faltavam comentários bem humorados nas redes sociais de familiares e amigos no Brasil: “Aproveita bastante as viagens, mas também vai estudar rapaz”.

Como há casos em que professores das universidades do exterior que recebem os brasileiros não fazem controle de presença, os alunos ficam atentos apenas à entrega de trabalhos e às avaliações no meio e no final do semestre.

Tais cicurstâncias contribuem com a “popularização” do termo “Turismo sem Fronteiras”. Os comentários – cada vez mais presentes na internet – feitos por colegas, conhecidos dos bolsistas e até usuários sem vínculo com o estudante do CsF são simples indicativos dessa “popularização”. No microblog Twitter, por exemplo, não faltam críticas e chacotas ao “Turismo sem Fronteiras”.

Críticas

A situação é criticada por especialistas consultados pelo iG Educação. “As experiências mostram que, para os alunos de graduação, o programa se torna um ´Intercâmbio sem Fronteiras´. O que as famílias de classe média faziam, agora é o governo quem paga”, compara o cientista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Stevens Rehen.

Rehen afirma que o governo poderia até alegar que o importante é o aluno brasileiro se expor a um ambiente internacional, ter a oportunidade de sair do País e aprender uma nova língua. A questão, diz ele, é o preço disso. “Se a gente for computar os valores, essa experiência sai muito caro”, diz.

7dsg7k6b33utkawvw648eulf2Já o pesquisador brasileiro Marcus Smolka, que atua na Universidade de Cornell – uma das melhores dos EUA -, observa que o real aproveitamento acadêmico dos alunos não é uma preocupação para a instituição estrangeira. “Ela está sendo paga para receber bem esse aluno. Então, o foco de sua preocupação é garantir que o brasileiro esteja bem alojado e socializado. Se está fazendo pesquisa ou não, não interessa”.

O interesse de instituições estrangeiras pelo aluno brasileiro – e pela verba do programa – precisa ser visto com cautela, afirma o ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“Recebi vários reitores americanos e ingleses. Existe um movimento grande de universidades estrangeiras buscando atrair o aluno brasileiro. Algumas são sérias, outras mais precárias. O fato é que levar brasileiros para lá é um ótimo negócio para elas”. Atualmente, países como a Espanha enfrentam uma crise financeira que impacta diretamente o número de estudantes matriculados nas instituições de ensino daquele país.

Outro lado

Consultado, o Ministério da Educação (MEC), que centraliza o posicionamento do Governo Federal sobre o Ciência sem Fronteiras, diz que “não procede” a informação de que o estudante faz poucas disciplinas.

“O programa controla as atividades realizadas pelo bolsista no exterior por meio de relatórios submetidos às agências de fomento. O controle também é realizado pelos parceiros internacionais do CsF que verificam a assiduidade do bolsista, seu desempenho, auxiliam na obtenção de vagas de estágio e atuam, ainda, na resolução de problemas de ordem acadêmica e administrativa em relação às instituições de destino”.

Em relação ao “Turismo sem Fronteiras”, o MEC afirma que “durante o período de vigência da bolsa, o Manual do Bolsista [documento com regras e orientações ao estudante] recomenda que todo o período de concessão seja destinado às atividades previstas na universidade. Caso haja necessidade de afastamento do local de estudos o bolsista deverá solicitar autorização à sua instituição de ensino no Brasil e comunicar a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, uma das agências federais que administra o programa] com a devida antecedência”.

Por fim, o MEC acrescenta que, no termo de compromisso assinado pelo bolsista, “a Capes [outra agência que coordena o programa] também se reserva ao direito de suspender ou cancelar a bolsa a qualquer momento, em função do desempenho acadêmico insuficiente ou decorrente de qualquer situação considerada desabonadora, podendo, inclusive, ser exigida a devolução parcial ou total do investimento realizado”.

Por: Davi Lira e Ocimara Balmant/iG

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