Uma viagem pela Europa de bicicleta foi a aventura que um casal brasileiros decidiu encarar. O relato é inspiração para quem quer aventura e um guia quem pretende se programar em tempo para enfrentar as mesmas condições climáticas.

por Marcos José de Abreu e Emília Vieira

Foi aliando nossa paixão pelo cicloturismo e a vontade de conhecer mais a Europa que pensamos nesta viagem. Nosso roteiro começou no início de setembro de 2013 e terminou no início de novembro, totalizando dois meses entre o verão e o outono. Diariamente, pedalávamos uma média de cem quilômetros. Tudo dependia do relevo, do clima e se tínhamos um destino fixo naquele dia. A viagem foi de aproximadamente 4,5 mil quilômetros.

Essa foi nossa segunda grande cicloviagem juntos: na primeira, percorremos o litoral nordestino, de Fortaleza a Salvador, na companhia de cinco amigos, um total de cerca de 2 mil quilômetros. Já realizamos outras pequenas viagens no sul do Brasil. O único cuidado era evitar ao máximo as grandes cidades, principalmente as capitais, pelo transtorno da entrada e de circulação (ainda que muitas tivessem excelente infraestrutura cicloviária).

França

Chegamos a Paris algumas semanas antes do início da viagem e fomos a Milão receber as bicicletas que havíamos comprado pela internet com a ajuda de um amigo. De Milão, retornamos a Paris pedalando, atravessando os Alpes pela região de Bardonecchia, na Itália, e Briançon, na França, e descendo até Grenoble, também em território francês.

Percorremos do sudeste da França até Paris, passando por lindas regiões montanhosas (o Maciço Central) e por caminhos chamados Voies Vertes, ou Vias Verdes, sendo a maioria antigas rotas ferroviárias transformadas em vias compartilhadas para ciclistas, pedestres, praticantes de roller e patins, e outros não motorizados.

Bélgica

Da capital francesa subimos até a Bélgica, nos direcionando para a linda cidade de Bruges (chamada de Veneza do Norte). Cruzamos a Bélgica e a costa oeste da Holanda passando por lindas ilhas e áreas rurais, um caminho totalmente plano e bastante ventoso. As sinalizações para rotas de bike na Bélgica são muito bem estabelecidas e mudam ao entrar na Holanda, mas seguem os princípios de point bike, ou pontos guia, que formam uma grande rede cicloviária no país, entre cidades, bairros e comunidades. As famosas cervejas belgas e os sucos e laticínios na Holanda foram nossos grandes companheiros na viagem. Chegando a Amsterdã, nos encantamos com a maravilhosa cidade — porém, deve-se atentar muito para o roubo de bicicletas. Aproveitamos dois dias para conhecer essa linda capital.

Alemanha

Em território alemão, buscamos alcançar o Rio Reno, a partir do qual seguimos beirando as muito bem estruturadas ciclovias até a casa desse amigo, percorrendo cenários lindos, de enormes vinhedos nas montanhas, castelos medievais e pequenas e médias cidades importantes na história do país, como Düsseldorf, Colônia e Koblenz.

Áustria

Seguimos em direção a Viena, na Áustria. Neste trecho, deixamos o Rio Reno para encontrar outro importante rio, em Regensburg, ainda na Alemanha: o Danúbio. Assim como o Reno, o local é totalmente indicado para ciclistas, com ciclovias bem sinalizadas (especialmente com a ajuda de mapas específicos destas ciclovias que margeiam rios), um relevo plano e muitos cenários maravilhosos, cores de outono e pequenas cidades típicas.

Leste europeu

Seguimos até Budapeste pelo rio. Em apenas um dia, saímos de Viena e já chegamos à capital da Eslováquia, Bratislava. Ali, os preços de tudo já eram bem menores, mas as ciclovias, muito piores. Budapeste é uma cidade encantadora, linda e bem organizada, pela qual passa o Danúbio, com ligações entre os dois lados por meio de cinco pontes. Nesta capital, há oito anos não havia pessoas usando a bike como meio de transporte. Hoje, por força dos movimentos sociais e de incentivo às ciclovias, cerca de 5% da população pedala diariamente.

Croácia

Partimos de Budapeste para seguir novamente entre as montanhas que cruzam o interior da Hungria, em direção à Croácia, para enfim chegar ao Mar Adriático. Este caminho foi lindo, percorrendo cidades e vilas agrícolas e ainda duas cidades com águas termais maravilhosas, bastante comuns nesta região do interior da Croácia. Seguimos até a costa do Adriático, por onde percorremos as lindas ilhas de Krk, Rab, Pag e Brac.

Da cidade de Split, ainda na Croácia, pegamos uma balsa que atravessou o Adriático até Ancona, na Itália, onde um grande amigo nos aguardava. Após alguns dias de descanso, seguimos nosso rumo para Turim (este trecho de trem), de onde, com a companhia de outro amigo italiano, pedalamos até Nice, na França, atravessando novamente os Alpes. Foi nessa linda cidade francesa mediterrânea que encerramos nossa cicloviagem.

Hospedagem

No início da viagem, no trecho entre Milão e Paris, conseguimos acampar algumas vezes (carregávamos barraca, sacos de dormir e equipamento para cozinhar), pois ainda era fim de verão e o clima estava bom. Nos trechos seguintes, infelizmente, não tivemos a mesma sorte, e com o tempo já bastante frio à noite, buscávamos pousadas, pequenos hotéis, bed and breakfasts. Foi somente no litoral da Croácia que pudemos voltar à barraca, cozinhar nossas massas ao pesto e passear à noite.

Dicas

Para quem deseja fazer uma cicloviagem pela Europa, recomendamos que não dependam apenas de GPS e aparelhos eletrônicos, que podem falhar. Nada melhor do que carregar o bom e velho mapa de estradas, de preferência com escalas maiores que indicam as menores estradas (ideais para pedalar tranquilamente). Outra solução é pesquisar em guias de rotas na web, como o Via Michelin, Google Maps (este não indica tão bem os caminhos mais adequados) ou o Open Routes Map, que possibilitam criar os melhores trechos para ciclistas.

Custo total

Com as passagens aéreas somadas aos dois meses de cicloviagem, o valor gasto foi de aproximadamente R$ 10 mil para o casal.

– Países mais caros: França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Áustria

– Países mais baratos: Eslováquia, Hungria e Croácia

Fonte: Zero Hora

Imagens: Reprodução