Irlandeses sabem como fazer da cerveja um ponto turístico. Tudo bem, vai, a Oktoberfest na Alemanha é um show a parte – as loiras levando pints de 3 litros nas mãos – mas a Irlanda juntou duas coisas que eu amo em um único passeio: livros e cerveja.

Eu estava em Dublin havia 3 meses, curtindo meu intercâmbio e adquirindo aquele sotaque gostoso, onde se fala UÁTER em vez de UÓRER, quando me deparei com uma notícia na internet: um pub que se gavaba de ter mais trezentos anos fazendo parte de um tour de três horas, liderado por atores que fazem intervenções artísticas em forma de poemas, tudo regado ao humor irlandês e claro, cerveja.

Não bastava ter Ulisses de James Joyce na cabeceira da cama. Eu queria ver isso ao vivo, a cores e à cevada.

E foi assim que eu descobri o Literary Pub Crawl. Acompanhei esse tour pelo menos umas 5 vezes, fiquei amigo de alguns atores e, na minha despedida, ganhei o ingresso e passe livre nos pubs onde passamos, e até fiz parte de algumas encenações. Acho que não preciso dizer que há certos momentos em que eu confio mais no que me disseram que no vazio que ficou na minha memória, depois de um monte de pints…

Mas o que mais me marcou não foi a receptividade irlandesa, ou a casa onde eu fiquei, ou mesmo a escola onde fiz o curso de inglês – que, por si só, já era um show a parte, um casarão que mais parecia um castelo – mas foi o percurso, de pub em pub, que esse passeio etílico faz. Para nós, brasileiros, tudo é feito de carro, o que impossibilita um passeio assim, mas em cidades feitas para se andar a pé, como boa parte das cidades européias. Por isso boa parte de meu exagero em achar tudo tão incrível. Fora que andar ajuda a metabolizar direito a cerveja para o próximo pub.

Começamos no The Duke, que tem a segunda mais antiga licença para comercializar bebidas. O pub tem dois andares, e é na sobreloja que os atores começam o tour. E tenho que dizer, estar no mesmo local que James Joyce tomava seus pints, e que até mesmo um certo Paul Hewson costumava aparecer antes de virar o Bono Vox, é bastante inebriante. (desculpe, não resisti. É a cerveja.)

Dali, passamos para o O’Neill’s. Sim, com esse monte de apóstrofos. O mais legal desse bar? A quantidade de chopes artesanais disponíveis: mais de 40 tipos diferentes de cerveja. Os atores sabem muito bem que a plateia já não está mais se preocupando com muitos detalhes. Afinal, 40 tipos de chopes artesanais…

Chegamos então ao bar cuja notícia me trouxe até aqui, o Old Strand. Old mesmo, mais de 300 anos de trabalho e um dos últimos estabelecimentos a instalar TV’s para os clientes. Colocando que alguns locais no Brasil deixam bem claro que não têm Wi-Fi, não achei ruim que tenham demorado a instalar TV’s. (hic). O nome do bar referencia á demolição da arquibancada do estádio Lansdowne Road, que foi onde o rúgbi começou na Irlanda.

Menções a escritores nos colocam ao lado deles nos bares, mas quando um bar que aparece no livro é onde estamos agora, nos sentimos um dos transeuntes ao lado do personagem principal. E foi bem assim que eu me senti no Davy Byrne, o chamado “pub moral” naquele…. naquele…. naquele livro que tá na minha…cabeceira.

Um dos pontos legais da rota é a passagem pela St. Andrew’s Church, que os atores usam como cenário e ilustração para cantar músicas sobre os conflitos religiosos na Irlanda. É quando estamos fora dos bares, ao ar livre, e quando eles cantam “A Nation Once Again” é comum que hajam mais pessoas se juntando a nós, e cantando junto uma das músicas a favor da independência da ilha.

Deixando a parte etílica um pouco de lado, os atores nos guiam e nos fazem passar por colégio que seria mais um, não fosse pelos alunos ilustres que estiveram ali: Oscar Wilde e Bram Stoker, para dizer o mínimo. Eles entoam então o poema Noctrune, de Eavan Boland, e marcam, assim, o fim de mais um ato, indo em direção a outro pub. Afinal, estamos na Irlanda.

O passeio custa entre 10 e 13 euros. E foi meu programão de iniciar meus amigos brasileiros que vinham pra cá. E cada vez que eu lembro, é porque ou estou diante de um clássico mencionado no passeio ou porque estou diante de um pint. E depois de outro.

Um brinde!