Adriano ouve todo o tipo de rock – do rockabilly mais fofo ao black metal mais extremo – e sabe bem seus caminhos com uma guitarra. Quando optou por fazer um intercâmbio, ensaiou a desculpa básica que a gente dá pra pai, mãe e chefe: crescer, ter uma experiência internacional, voltar falando inglês com perfeição, essas coisas.

Mas todo mundo perguntava pra ele: por que você não vai pra Nova York, São Francisco, alguma cidade grande? Tem mesmo que ir pra Nova Orleans? E por que vai ficar seis meses lá e seis meses em Londres? Todo mundo perguntava para ele e ele dizia que havia visto custo de vida, oportunidades e coisas genéricas. Uma pessoa mais atenta notaria o padrão: Nova Orleans é o berço do blues, o pai do rock. E Londres, bem, Inglaterra: os ingleses ainda fazem rock como poucos no mundo. E a história que o país tem com o rock é muito mais rica, mais até que dos estadounidenses.

Uma vez em Nova Orleans – e a cidade cheirando a Katrina até hoje – Adriano foi correndo para seu emprego novo: um dos bares mais conhecidos da cidade, onde o blues não parava nem nas limpezas. O dono, um certo Norman Blues (é, pois é) possuía uma imensa coleção de vinis raros, alguns condizentes com sua idade um tanto avançada e sua aparência de B.B. King menos gordo. E, para provar, uma das maiores fotos do local é justamente um abraço fraterno entre Norman e o dono de Lucille.

As pulsões musicais da cidade não cessaram mesmo depois da catástrofe Katrina. Adriano, por seu interesse em conhecer as raízes do rock, ganhou de Normam uma tarefa no seu expediente: ler as biografias dos grandes homens do blues e ouvir o estilo musical até conseguir separar Miles Davis de Winton Marsalis e reconhecer Thelonious Monk na primeira nota e conseguir chorar ao ouvir Ella Fitzgerald e Billie Holliday. Jazz e Blues na mente e, seis meses de tratameto intensivo – isso e alguns truques com a coqueteleira, que lhe foi incumbida depois de preparar uma caipirinha – e os correios receberam umas oito caixas, cheias de livros, partituras e LP’s raros. Adriano assim, partiu para Londres.

Abbey Road, Apple Studios e o local das BBC Sessions foram vistos todos na primera semana. Agora um bartender – ah, a caipirinha que esse povo não sabe fazer – Adriano trabalhou em um hotel, e dali, saía para participar de gravações na BBC – afinal, Muse acústico não é sempre que aparece – e tratou de comprar uma batelada de ingressos para todos os shows que no Brasil são mais do que caros. E claro, livros e mais LP’s eram enviados ao Brasil.

Quem procura acha e Adriano encontrou várias pessoas acima de cinquenta anos que aspiravam o rock. Ouviu histórias de mudanças de vida por causa de uma letra, de amores que viraram história ou se tornaram eternos, descobriu que o Deep Purple se apresenta em locais pequenos para shows, que Glastonbury é menos interessante que o Reading’s Festival, encontrou sebos mais parecidos com museus e bootlegs tão bem feitos que a própria banda incentivava a compra. Descobriu pequenos bares onde bandas promissoras comprovavam o que ele sentia, mas todos parecem discordar: o rock está vivo, muito bem, obrigado, apenas está recluso, planejando seu retorno triunfal.

Graças à inabilidade latente dos anglos de se fazer uma boa caipirinha – e de se falar a palavra “caipirinha” – um pouco de cara de pau e muita vontade de aprender, Adriano chegou da Inglaterra parecendo um punk sofisticado: coturnos e um terno de tweed. Ao chegar em casa, seu quarto estava cheio de caixas, pesadas, contendo livros e LP’s – estes, inteiros por causa do embalo cuidadoso e da ausência do adesivo de FRÁGIL, para evitar ser zoado no manuseio.

Ele não sabe o que dá mais orgulho: a biblioteca, o acervo, as histórias, os shows, a quantidade absurda de fotos, os autógrafos emoldurados, a coqueteleira, os amigos estrangeiros… ele não sabe. Ir para fora lhe deu o intercâmbio e o peso ao mais no currículo, mas o que lhe fez melhor foi a intenção: conhecer profundamente as raízes do rock.

A considerar o que ele fez, ele conseguiu.